domingo, 22 de novembro de 2009
#Doeumlivrononatal
terça-feira, 17 de novembro de 2009
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Muro de Berlim: além do fundamentalismo do mercado, depois de 20 anos
O breve século XX foi uma era de guerras religiosas entre ideologias seculares. Por razões mais históricas do que lógicas, o século passado foi dominado pela oposição entre dois tipos de economia mutuamente excludentes: o “socialismo”, identificado com as economias planejadas centralmente do tipo soviético, e o “capitalismo”, que cobriu todo o resto.
Esta aparente oposição fundamental entre um sistema que tentou eliminar a busca pelo lucro da empresa privada e outro que procurou eliminar toda restrição do setor público sobre o mercado, nunca foi realista. Todas as economias modernas devem combinar o público e o privado de variadas maneiras e de fato o fazem. As duas tentativas de cumprir a qualquer custo com a lógica dessas definições de “capitalismo” e “socialismo” fracassaram. As economias de planejamento comandadas pelo Estado do tipo soviético não sobreviveram aos anos 80, e o “fundamentalismo do mercado” anglo-norte-americano, então em seu apogeu, se fez em pedaços em 2008.
O século XXI terá de reconsiderar seus problemas em termos mais realistas. De que maneira o fracasso afetou os países anteriormente comprometidos com o “modelo socialista”? Sob o socialismo, eles não foram capazes de reformar seus sistemas de economia planificada, embora seus técnicos tivessem plena consciência de seus defeitos fundamentais, que eram internacionalmente não competitivos e continuavam sendo viáveis apenas na medida em que estivessem isolados do resto da economia mundial.
O isolamento não pôde ser mantido, e quando o socialismo foi abandonado, já o fora pelo colapso dos regimes políticos, como ocorreu na Europa, ou pelo próprio regime, como sucedeu na China e no Vietnã, esses Estados mergulharam de cabeça no que para muitos parecia a única alternativa à disposição: o capitalismo em sua então dominante forma extrema do livre mercado.
Os resultados imediatos na Europa foram catastróficos. Os países da ex-União Soviética ainda não superaram seus efeitos. Felizmente para a China, seu modelo capitalista não se inspirou no neoliberalismo anglo-norte-americano, mas no muito mais dirigista dos “tigres” do Leste asiático. A China lançou seu “grande salto adiante” econômico com escassa preocupação por suas implicações sociais e humanas.
Este período agora está chegando ao fim, tal como ocorre com o domínio do liberalismo econômico anglo-norte-americano, embora ainda não saibamos quais mudanças trará a atual crise econômica mundial depois de superados os efeitos da sacudida dos últimos dois anos. Somente uma coisa é clara, há um importante deslocamento das velhas economias do Atlântico Norte para o Sul e, sobretudo, para a Ásia do Leste.
Nesta situação, os ex-Estados socialistas (incluindo aqueles ainda governados por partidos comunistas) enfrentam problemas e perspectivas muito diferentes. A Rússia, tendo se refeito até certo ponto da catástrofe da década de 90, ficou reduzida a ser forte, mas vulnerável, exportadora de matérias-primas e energia, e até agora não foi capaz de reconstruir uma base econômica mais balanceada.
A reação contra os excessos da era neoliberal levou a certo retorno para uma forma de capitalismo de Estado com uma reversão a aspectos da herança soviética. É evidente que a simples “imitação do Ocidente” deixou de ser uma opção. Isto é ainda mais óbvio na China, que desenvolveu seu capitalismo pós-comunista com considerável êxito. Tanto é assim que futuros historiadores poderão muito bem ver a China como a verdadeira salvadora da economia do mundo capitalista na atual crise.
Em resumo, já não é possível crer em uma única forma global de capitalismo ou de pós-capitalismo. Porém, modelar a economia futura talvez seja o assunto menos importante de nossas preocupações. A diferença crucial entre os sistemas econômicos está não em suas estruturas, mas em suas prioridades sociais e morais. A este respeito vejo dois problemas:
O primeiro é que o fim do comunismo significou o súbito fim de valores, hábitos e práticas sociais com os quais várias gerações viveram, não apenas dos regimes comunistas, mas também os do passado pré-comunista e que foram amplamente preservados sob tais regimes. Exceto para os nascidos depois de 1989, se mantém em todos um sentimento de alteração e desorientação social, mesmo com os apuros econômicos já não predominando na população pós-comunista. Inevitavelmente, passarão várias décadas antes de as sociedades pós-comunistas encontrarem um modo de viver estável na nova era, e de poderem ser erradicadas algumas das consequências da alteração social, da corrupção e do crime institucionalizados.
O segundo problema é que tanto o neoliberalismo ocidental quanto as políticas pós-comunistas que o inspiraram deliberadamente subordinam o bem-estar e a justiça social à tirania do Produto Interno Bruto, sinônimo do máximo e deliberadamente desigual crescimento. Desta forma se sufoca, e em alguns países ex-comunistas se destrói, o sistema de segurança social, os valores e os objetivos do serviço público. Tampouco existem bases para o “capitalismo com rosto humano” da Europa das décadas posteriores a 1945, nem para satisfatórios sistemas pós-comunistas de economia mista.
O propósito de uma economia não deve ser o lucro, mas o bem-estar de todas as pessoas, assim como a legitimação do Estado é seu povo e não seu poder. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para criar sociedades boas, humanas e justas. O que importa é com quais prioridades combinaremos os elementos públicos e privados em nossas economias mistas. Esta é a questão política-chave do século XXI.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Morre aos 100 anos o antropólogo Lévi-Strauss
Em São Paulo
O etnólogo e antropólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss morreu na noite de sábado para domingo (1º) aos 100 anos, de acordo com um porta-voz da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris, na França. Ainda não há informações sobre a causa da morte do antropólogo. O falecimento foi divulgado pela editora Plon.
Nascido em Bruxelas, na Bélgica, Lévi-Strauss foi um dos grandes pensadores do século 20. Ele, que completaria 101 anos no próximo dia 28, tornou-se conhecido na França, onde seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.
De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro "Tristes Trópicos" (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil.
"Ele soube partir do empirismo para dialogar e colocar a antropologia em pé de igualdade com outras ciências humanas, como a filosofia. Lévi-Strauss é um autor fundamental", afirma Renato Sztutman, professor do Departamento de Antropologia da USP e mestre e doutor em Antropologia Social na área de etnologia indígena.
Exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Lévi-Strauss foi professor nesse país nos anos 1950. Na França, continuou sua carreira acadêmica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre (1905-1980), e assumiu, em 1959, o departamento de Antropologia Social no College de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.
O estudioso jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada e única. Sempre enfatizou que a mente selvagem é igual à civilizada. Sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda parte surgiu nas incontáveis viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de indígenas das Américas do Sul e do Norte.
O antropólogo passou mais da metade de sua vida estudando o comportamento dos índios americanos. O método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos chama-se estruturalismo. "Estruturalismo", diz Lévi-Strauss, "é a procura por harmonias inovadoras".
A corrente estruturalista da antropologia, da qual Lévi-Strauss é o principal teórico, surgiu na década de 40 com uma proposta diferente da antropologia de viés funcionalista, predominante até então. "O funcionalismo se preocupava com o funcionamento de cada sociedade e em saber como as coisas existiam na sua função social. O estruturalismo queria saber do trabalho intelectual. Olhar para os povos indígenas e buscar uma racionalidade e uma reflexão propriamente nativa", diz Sztutman.
Suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas linguísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objetos etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Escreveu, em "O Pensamento Selvagem", que a língua é uma razão que tem suas razões - e estas são desconhecidas pelo ser humano.
"Ele abriu um caminho para pensar a filosofia indígena, valorizar o lado intelectual dos povos estudados, e não ficar naquela coisa 'nós (ocidentais) temos uma grande teoria e eles não'. Lévi-Strauss abriu caminho para valorizar o aspecto intelectual de outras populações", acrescenta Sztutman.
Lévi-Strauss não via o ser humano como um habitante privilegiado do universo, mas como uma espécie passageira que deixará apenas alguns traços de sua existência quando estiver extinta.
Membro da Academia de Ciências Francesa (1973), integrou também muitas academias científicas, em especial européias e norte-americanas. Também é doutor honoris causa das universidades de Bruxelas, Oxford, Chicago, Stirling, Upsala, Montréal, México, Québec, Zaïre, Visva Bharati, Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia, entre outras.
Aos 97 anos, em 2005, recebeu o 17o Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha. Declarou na ocasião: "Fico emocionado porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente".
*Com informações do UOL Educação
http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2009/11/03/ult1859u1791.jhtm
Sem fotos pq a internet resolveu ser lesma hoje...
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Pintando a universidade com as cores do povo: uma homenagem a Che.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Constituição hondurenha não justifica o golpe
Folha de S. Paulo
Assunto: MundoTítulo: Constituição hondurenha não justifica o golpe
Data: 30/09/2009
Crédito: Pedro Estevam Serrano, especial para a Folha
ANÁLISE
O golpe em Honduras, que destituiu do exercício de seu mandato pelas armas um presidente eleito pelo voto, tem sido duramente repudiado pela comunidade internacional. Os golpistas usaram como justificativa o apoio da Corte Suprema e do Legislativo à deposição de Manuel Zelaya, fundando-se no artigo 374 da Constituição, que torna inválido qualquer plebiscito ou referendo que possibilite a renovação do mandato presidencial.
A partir dessa justificativa, alguns articulistas têm adotado como verdade uma suposta juridicidade do golpe, que teria, assim, um caráter universal de defesa da Constituição.
Tal conclusão, contudo, não resiste a uma leitura minimamente sistemática do texto constitucional de Honduras. O artigo 374 da Carta Magna hondurenha efetivamente impossibilita reforma constitucional que altere o mandato presidencial ou possibilite a reeleição do titular do respectivo mandato. Em verdade, tal dispositivo é clausula pétrea da Carta.
A clausula torna inválida qualquer alteração constitucional com tal objeto, mas não tem por si o condão de gerar a perda de mandato do presidente e muito menos dispensa o devido processo legal para tal sanção. O artigo 5º da Constituição impossibilita referendos ou plebiscitos que tenham por objeto a recondução do presidente ao mesmo mandato, sendo que o artigo 4º considera como obrigatória a alternância do exercício da Presidência, tornando crime de traição contra a pátria sua não observância.
Ora, a simples proposta de reeleição por um mandato do presidente da República não implica atentado contra o princípio da alternância, apenas altera o lapso de tempo pelo qual se dará tal alternância.
O único dispositivo no texto que poderia servir de fundamento à possível perda do mandato do presidente seria, provavelmente, a alínea 5 do artigo 42 da Carta, que torna passível da perda dos direitos de cidadania, entendida como a capacidade de votar e ser votado, a pessoa que "incitar, promover ou apoiar o continuísmo ou a reeleição do presidente".
Primeiro, a afirmação que a proposta de reforma constitucional de Zelaya implica inobservância de tal dispositivo merece algum reparo. O dispositivo pretende evitar o apoio e o incitamento ao continuísmo do detentor do mandato de presidente na época dos fatos. Zelaya tem afirmado que sua proposta é de possibilitar a reeleição de futuros presidentes, e não dele próprio. Assim, ele não teria apoiado, promovido ou incitado o continuísmo do atual presidente -ele próprio.
E, de qualquer forma, a alínea 6 do artigo 42 e diversos outros dispositivos da Constituição hondurenha determinam que a perda da cidadania deve ser aplicada em processo judicial contencioso e com direito a ampla defesa, observado o devido processo legal, o que não ocorreu de modo algum no procedimento adotado pelos golpistas e seus apoiadores.
Ainda que se considerasse que Zelaya cometeu crime ao ter formulado uma proposta de consulta popular contrariamente à Constituição, que o devido processo legal seria desnecessário por não previsão de procedimento específico de cassação de seu mandato na Carta hondurenha, que a Corte maior daquele país sancionou a decisão golpista de detê-lo, a forma de execução dessa decisão foi integralmente atentatória a dispositivos expressos da Constituição de Honduras.
O artigo 102 estabelece expressamente que nenhum hondurenho pode ser expatriado nem entregue pelas autoridades a um Estado estrangeiro. Ter detido Zelaya ainda de pijamas e tê-lo posto para fora do país de imediato atenta gravemente contra tal dispositivo.
A conduta golpista tratou-se de um cipoal de inconstitucionalidades, ao contrário do que postularam articulistas apressados, mais animados pela simpatia ao golpe de direita que por qualquer avaliação mais precisa e sistemática da Constituição hondurenha. Os atos praticados formam um atentado grave a diversos dispositivos da Carta Magna daquele país.
Em verdade, a conduta dos golpistas e dos que os apoiaram é que, clara e cristalinamente, constitui crime conforme o disposto no artigo 2º da Carta hondurenha, que tipifica como delito de traição da pátria a usurpação da soberania popular e dos poderes constituídos.
Podem querer alegar que, mesmo inconstitucional, toda a conduta golpista foi sustentada pela Corte maior. À Corte constitucional cabe o papel de interpretar a Constituição e não de usurpá-la às abertas. Sua autoridade é exercida não em nome próprio, mas como intérprete da Constituição, cabendo-lhe defendê-la, não destruí-la.
Ao agir como agiu, a Corte hondurenha realizou o que no âmbito jurídico tem-se como "poder constituinte originário", ou seja, uma conduta política e não jurídica, originária, de fundação de uma nova ordem constitucional. Uma ordem imposta, de polícia e não democrática. Na ciência política, o mesmo fenômeno tem outro nome: golpe de Estado.
PEDRO ESTEVAM SERRANO, mestre e doutor em direito do Estado, é professor de direito constitucional da PUC-SP
sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Como diz André Dahmer, autor dos Malvados, Angeli é o maior chargista do Brasil!
(Cliquem na charge para vê-la melhor)
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
O Estupro
Achei esse texto no blog da Maíra Viva Mulher
, mas inicialmente o texto veio do blog Ofensiva Contra a Mercantilização
. Achei interessante, não tem muito valor enquanto literatura, mas tem uma grande mensagem. Me cansa um pouco o teor muuuuito reflexivo no meio da cronica, essa coisa de ficar explicando de mais tudo, mas, como ja disse, o que vale é a ideia dele. É meio longo mas vale a leitura.
beijos
Ana
Eu andava pela rua do Four em direção ao metrô, voltando para casa. Eram oito horas da noite. Enquanto atravesso a rua um moço me vê do outro lado da rua, me avalia, me espera e me aborda. Ele é de altura média, nem feio nem bonito, vestido burguesmente, usa óculos. (Se você o encontrar, chama-se Marc, não soube seu sobrenome.) Parece estudante de Direito. Não é o meu tipo.
Perdão, senhorita, quer que eu a acompanhe, perdão, senhorita, posso falar com você, boa noite, como vai, aonde vai tão depressa, ou qualquer coisa no gênero, me diz ele.
Não gosto de ser abordada. Isso não traria problemas, se homens e mulheres fossem iguais, se as relações entre os sexos fossem recíprocas. Mas atualmente esse não é um meio como um outro de se conhecer alguém, porque é um meio que coloca de início a mulher como objeto sexual. A maioria dos homens que abordam uma mulher não esperam que ela tenha manifestado o menor desejo, que tenha sustentado seu olhar, nem mesmo que os tenha visto. Começam freqüentemente a falar antes de ter visto seu rosto, chegam e dirigem-se a ela por trás.
Era, como quase sempre, sua escolha e não a minha. Primeiro, não respondi - ele me era indiferente. Depois ele insistiu, seguindo-me. A força de sua insistência juntou-se à da minha solidão, e respondi. Percebi que falar me dava prazer. Queria companhia. Seu desejo era a priori bem diferente, afirmou ele mais tarde. Tratava-se de uma decisão que não foi modificada nem por minha atitude geral, nem por minhas afirmações, nem por minha recusa física.
Quando ele propôs tomarmos um café, aceitei, prevenindo-o que o deixaria meia hora depois (porque eu só previa um alívio verbal para minha solidão e não tinha a impressão que uma amizade nasceria deste encontro).
Então começou a escalada. "Conheço um café um pouco mais adiante", diz ele. Na verdade, é ao seu carro que me leva, abre-me a porta sem perguntar minha opinião.
É o primeiro indício de sua vontade de poder. Isso deveria ter bastado para que eu me recusasse a entrar no carro. Infelizmente as mulheres estão habituadas a não se chocar com a pressão continuamente feita pelos homens sobre elas. Eu não notava que, entre esse gênero de abuso - constante - e o estupro, só há uma diferença de grau, não de natureza.
Até aqui eu ainda estava formalmente livre. Digo formalmente, porque, se eu me tivesse recusado a entrar no seu carro, isso teria provado que eu não poderia fazê-lo sem risco. Se uma mulher não tem escolha entre privar-se de companhia ou aceitar uma companhia com o risco de que sua liberdade não seja respeitada, essa mulher não é livre.
Comecei por recusar a subir. Disse que preferia ir a um café ali por perto, que era mais simples, etc.
Espontaneamente, não exprimia a razão verdadeira de minha recusa. Fazia de conta que o carro representava apenas uma complicação prática.
Utilizava em realidade um código implícito, compreendido por meu interlocutor, pois ele me respondeu: "Mas não é possível, não me diga que você está com medo. Não vou te comer", etc.
Eu tinha afirmado o risco da agressão sem mencioná-lo, e ele o tinha mencionado, negando-o. Todos os dois, eu por voluntarismo, ele por chantagem, fazíamos de tenta que ignorávamos a situação social da mulher como objeto sexual, quer dizer, a possibilidade de que sua liberdade não seja respeitada.
Quando eu lhe disse que não era cômodo tomar o carro, eu falava como uma mulher livre que só se coloca um problema material. De fato, sem ter plenamente consciência, eu recusava a situação sob dois aspectos: de um lado, a possibilidade de que esse homem abusasse de mim (como tão justamente se diz) no carro; e, por outro lado, o significado social de meu gesto, se eu entrasse no carro. Este significado faz parte de um código implícito, e é por isso que é tão difícil de ser analisado.
Eu temia que no fundo minha atitude fosse considerada como um convite sexual, quando não era o caso. Ou, mais exatamente, eu temia que o homem fingisse interpretar minha atitude como um convite sexual para se justificar mais facilmente de uma agressão eventual (situada a qualquer nível), negando assim seu caráter de agressão.
Este medo obscuro exprimia uma realidade social habitual. As mulheres nunca são realmente consideradas vítimas da agressão masculina, mas cúmplices. Paradoxo absurdo, destinado a negar a realidade da opressão das mulheres. Se uma mulher vai ao quarto de um desconhecido e aí é estuprada, dir-se-á que ela tinha "procurado", que o fato de entrar no quarto era uma aceitação implícita do que poderia acontecer. Levando ao extremo, finge-se crer nesse contra-senso: que uma mulher possa gostar de ser violada.
Todas essas idéias repousam sobre o mito da natureza passiva da sexualidade feminina, mito destinado a justificar um papel social que é imposto às mulheres. "Uma mulher que não diz nada consente. Uma mulher que diz não quer dizer talvez, uma mulher que diz talvez quer dizer sim." Dito de outra maneira, seja a mulher neutra, resistente ou hesitante, ela está sempre de acordo. Quer dizer que a liberdade das mulheres é totalmente negada, que lhes é negada toda autonomia sexual. O que ela exprime não é ouvido, mas percebido em função do desejo masculino. Num caso extremo (mas de fato normalmente), um desejo positivo de sua parte é percebido como ambíguo, como um desejo recusa, uma submissão e não uma escolha.
Sobre isso, uma amiga contou-me uma história exemplar. Ela estava com um homem com quem ela queria fazer amor, e esse desejo era compartilhado. Mas aparentemente seu desejo era um obstáculo para a realização dos desejos de seu companheiro. Era preciso haver um simulacro de recusa. Assim ele a agrediu, bateu, injuriou, gritando: "Você tá gostando, suja, tá gostando!" Não era preciso que essa mulher tivesse vontade de fazer amor, não, era preciso que ela tivesse vontade de ser violada. Seu desejo devia ser transformado em submissão a esse homem como a tantos outros cujo prazer é indissociável de uma vontade de dominação.
Voltando à minha história, recusei, portanto, a princípio, subir no carro, sob vários pretextos, na realidade para não oferecer a meu interlocutor essa arma dupla: a possibilidade material de abusar de mim num grau qualquer e o pretexto de minha cumplicidade.
Mas o código que eu tinha utilizado, quer dizer, o pretexto material, implicando a ausência de obstáculos morais, implicando, portanto, minha liberdade, se voltava contra mim, uma vez usado pelo homem. Tendo compreendido perfeitamente o sentido real de minha resistência respondeu a essa objeção subjacente invocando ele também minha pretendida liberdade, o que era negar o fundamento de minha objeção. A ilusão da liberdade em uma mulher (a negação de sua opressão) torna-se para a sociedade um meio de chantagem contra ela, para mantê-la em seu estado de opressão. Sua chantagem constituía em ridicularizar meu medo de ser tratada como objeto sexual. "Não vou te comer", quer dizer são medos de menininhas. Os homens não são "maus". Dito de outra maneira: você é livre. Se você entra no meu carro, você realiza essa liberdade. Se você não entra, você está se privando desta liberdade, obedecendo a tabus ridículos.
No fracasso das relações entre homens e mulheres, as mulheres são sempre as primeiras a serem acusadas. Se elas recusam relações alienadas, são consideradas como inocentes (quer dizer ridículas) ou pequeno burguesas, e se elas são vítimas de relações alienadas, elas ainda são culpadas, porque deveriam ter desconfiado. A esse propósito, o rapaz em questão (chamemo-lo JH) censurou duas vezes minha ingenuidade: antes do estupro, porque eu era boba de não querer subir no seu carro, e depois do estupro, porque eu deveria ter desconfiado.
É preciso verdadeiramente denunciar a chantagem masculina que consiste em chamar "pudor ofendido" ou "repressão" as reações femininas a uma agressão disfarçada de "liberdade sexual". Entre muitos pseudo-revolucionários, principalmente, a liberdade sexual se confunde com a liberdade exclusiva dos homens, às custas da das mulheres. É muito comum que os estudantes que se dizem revolucionários vaiem as estudantes, sob o pretexto que são "pequeno-burguesas". Nunca os vi agredir dessa maneira "pequenos-burgueses." As mulheres, por causa de seu sexo, são mais agredidas e ridicularizadas que qualquer homem por sua cor. Não há pior racismo que o "sexismo". Quanto às reações de "pudor ofendido", elas não são mais que a expressão de uma humilhação real. devida a um desprezo real. Isso nunca é dito.
O estágio primário da emancipação de uma mulher é de fazer de conta que é livre ou, mais exatamente, é tentar sê-lo é experimentar a realidade até que a ilusão se desfaça.
Acreditei no discurso hipócrita desse rapaz, acreditei que estava livre, porque eu queria sê-lo, queria poder entrar no carro de um desconhecido só com a intenção de ir tomar um café e que essa intenção fosse tomada pelo que ela era.
Nós chegamos ao Châtelet, e lá JH entrou numa rua de grande circulação. Como eu me inquietava quanto ao lugar onde íamos, JH me repetiu que ele conhecia um café um pouco mais adiante. No caminho ele começou a jogar o "jogo da verdade", ao qual me prestei sem prever o uso (entretanto já de se esperar) que faria dele. Naturalmente ele começou a fazer perguntas de ordem sexual que no princípio não me encabularam, mas depois se tornaram francamente obscenas. Era o segundo indício de sua capacidade de agressão. Era em si uma agressão sexual. As palavras que despem dando nomes são uma maneira como uma outra de se apropriar do corpo do outro. Isso também é estupro. Aliás, foi o que eu lhe disse, crendo-me obrigada a explicar minha recusa em responder. (A quantas explicações estão condenadas as mulheres para tentar vencer a má fé masculina?)
Nesse momento notei que esse homem não me deixaria "tranqüila". Mas nem um instante, até o último momento, pensei que ele quisesse realmente me violar. Disse-lhe, sempre esses pretextos, que começava a ficar tarde e que eu preferia voltar imediatamente. Pedi-lhe que me deixasse na próxima esquina. Ele disse que já era tarde demais, que não dava mais jeito de parar, que já estávamos chegando. Parou num lugar qualquer em Joinville, em frente a uma casinha bastante isolada das outras. Entrei com ele, pedindo-lhe que me levasse de volta rapidamente.
Que eu tenha sido ingênua não vem ao caso.
Pôs alguns discos, sentamo-nos diante da mesa, ofereceu-me uísque. Falamos indiferentemente de filmes e discos. Pôs a mão no meu joelho. Retirei-a. Recomeçou. Nova recusa. "Por que você não quer? Não quer namorar?" "Não, eu disse, não tinha essa intenção." "Então não devia ter vindo", me respondeu. Fortificado com esse argumento, recomeçou cada vez mais. Fiquei com raiva. "Bom, bom, me disse, eu paro, mas venha sentar-se na cama, é mais confortável." Sentei-me na cama. Era completamente idiota de minha parte. Talvez eu tivesse essa reação que se tem diante do perigo, fingindo que ele não existe para conjurar o malefício. Parecia-me que um medo claramente expresso ou recusa demais poderiam excitar ainda mais sua vontade de poder. De toda maneira, dada sua decisão, isto nada mudaria. Logo que sentei na cama, ele me derrubou segundo o método clássico e procurou beijar-me à força. Debati-me, levantei-me, peguei minhas coisas e fugi para a porta. Logo ele me alcançou, carregou-me nos braços e jogou-me na cama. Beijou-me de novo à força (não menciono os gestos anexos). Então mordi-lhe o polegar. Meus dentes se enfiaram interminavelmente. Levantou-se furioso e contemplou seu dedo aberto e sangrando.
- "Suja! Por que você me fez isso?"
Intelectual como sempre, expliquei que estava só me defendendo. O que não consigo compreender é por que a gente insiste em responder à má fé.
"Você não tem o direito, respondeu-me. Afinal, não te fiz nada. Não te machuquei.”
Queixava-se de sua dor, enquanto me sacudia e me batia. Depois ameaçou-me mais ou menos nesses termos: "Agora, minha pequena, se você tenta me resistir um só segundo, te arranjo. (Levo um murro no queixo.) Posso muito bem te furar a bochecha com meu cigarro. Posso te desmaiar. Sou o mais forte", etc.
Nesse momento senti-me desesperada. Pensei que ia desandar a chorar. Ele disse algo como "vê se não começa a choramingar agora, que não vai servir pra nada". Retomei-me e, em desespero de causa, tentei pregar-lhe a moral. Tentei também fazê-Io compreender que não era, "interessante" para ele fazer amor nessas condições. (Acho particularmente abjeto que uma mulher deva ter que se preocupar com o interesse de um homem que quer violá-la para persuadi-lo a que não o faça.)
JH respondeu-me que tinha decidido me "possuir" desde que me tinha visto, e que o faria. Ponto.
Procurei com o olhar no quarto algo que pudesse me ajudar, mas nada vi. Nem mesmo teria tempo de pegar o telefone. Gritar não ia valer de nada, dado o isolamento da casa. Disse a mim mesma que, se eu me debatesse o tempo todo, ele não teria possibilidade física de me violar. Mas pensei que, na pior das hipóteses, estava nas mãos de um maníaco capaz de me matar, e, na melhor, levaria uma surra, que comportaria, além do inconveniente da dor, o risco de ter de me apresentar à minha família tumefeita e coberta de marcas azuis. Seria preciso explicar em que situação me metera ("mas, pobre criança, também que idéia de..." etc.), seria eu quem seria considerada culpada. A vergonha sobre mim.
Tudo o que entrevi em alguns segundos pareceu-me mais terrível que me entregar e esperar que aquilo acabasse. Não queria morrer nem ficar com marcas inúteis. O estupro, de todo jeito, pela violência e pela humilhação, já estava consumado.
Nesse momento pensei no risco - especialmente naquele dia - de ficar grávida. Disse-lhe. Curiosamente, respondeu-me:
- Mas é claro que vou tomar cuidado, não sou um menino!
Aparentemente ele pensava que tinha ainda uma honra a reabilitar a meus olhos, como se em minha recusa pudesse haver o menor lugar para sua vantagem.
O caso durou trinta segundos. Um amigo a quem contei a história me perguntou, para minha grande surpresa, se eu tinha gozado! O que parece provar que para ele não havia uma diferença profunda entre violar e fazer amor. Esse comentário vale para todos os maridos que se queixam da frigidez de sua mulher e continuam a exigir o cumprimento do "dever conjugal “. A forma habitual de relações sexuais entre nossos avós e nossas avós era pura e simplesmente o estupro.”Cada vez era um suplício", dizia minha avó à minha mãe, que aprovava a comparação. O estupro, conjugal ou não, é ainda a forma típica, realizada num ou noutro nível, das relações entre os sexos.
Ele não "tomou cuidado". Eu lho disse, ele o negou, sempre atento à sua honra. Naquele mês tive um atraso muito grande. Passei muitos dias na angústia, a me perguntar se teria o direito de abortar legalmente naquele caso (não tinha), como poderia provar o estupro (tente... ), etc. Agradeço à sorte, foi só um atraso.
Quando já estávamos vestidos, JH teve a cara de pau de se mostrar decepcionado, perguntou-me se verdadeiramente eu não tinha achado agradável e, quando manifestei - prudentemente - minha intenção de voltar para casa, teve a cara de pau ainda mais monstruosa de me perguntar se eu não queria passar a noite com ele. Sempre essa mesma negação, formulada ou implícita, da realidade do estupro. Sá sentia ódio por ele e uma vontade terrível de brigar. Foi nesse momento que mais sofri, tendo que conter em mim tudo o que queria cuspir-lhe na cara, sempre prisioneira da chantagem da lei do mais forte. Refugiando-me irrisoriamente na intelectualização, tentei "instruir-me". Fiz-lhe perguntas sobre ele. Deu-me a informação contraditória de que sempre agia assim com as moças, elas estejam ou não de acordo, mas que "a maioria aceitava". Depois me avisou com o ar contente de si que em todo caso manteria a promessa de levar-me de volta. No carro justificou (?) o estupro pela "inferioridade natural das mulheres". Só abria a boca para fazer declarações cada uma mais acabrunhante que a outra. Quando me deixou em Paris, eu tinha tido de tal maneira que reprimir minha agressividade que, paralisada, nem consegui bater a porta do carro.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009

Amigos e amigas, familiares e outros,
Venho por meio desta comunicar que as postagens referentes a minha vida nos EUA serão, de agora em diante, realizadas no blog http://vivendoemterritorioinimigo.blogspot.com/, lincado aqui ao lado também.
Sem mais, agradeço a atenção e o carinho de todas e todos.
Ana Morbach.
domingo, 30 de agosto de 2009
Gororoba boa
Nesses últimos dias quase não saí de casa, um pouco por preguiça/medo, um muito por não ter a onde ir. Não sei muito como é essa coisa de ficar sozinha, na certa nunca fiquei tanto tempo assim sem estar, de verdade, com ninguem.
Nesses dias tentei levar uma vida normal, e algumas coisas contribuiram para isso. A primeira e mais importante foi a compra de um celular que faz ligações, digamos, gratuitas para o Brasil. Fiquei hoooooooras no telefone esses últimos dias, liguei pra todo mundo que eu lembrava o número.
Outra coisa que fiz foi cozinhar. Já vim pra cá preparada para ter de fazer comida, afinal de Mc em Mc, a porca chega no ponto de abate, e eu realmente não quero chegar lá. E olha que quanto mais trash, mais gordura, conservante e glutamato monosódico tiver a comida, mais barata ela é aqui.
Na minha primeira noite sozinha resolvi fazer umas tapiocas, afinal eu já não aguentava mais comer pão com cheddar e mortadela. Tive alguns inconvenientes por não conhecer a cozinha e tals, e o pior de tudo...Não achei uma misera peneira, alias como fala peneira em ingles? - (Gente, a gente descobre que tem umas coisas mais do que óbvias que eu a gente nunca parou pra pensar como se diz tal coisa em ingles? Alias, só pensamos nisso na hora que precisamos da porcaria da palavra e ela não vem na cabeça simplesmente porque nunca paramos pra pensar que essa palavra seria útil um dia. Peneira é só uma das inúmeras palavras que me faltam.) - Voltando pra comida: Mas isso não me abateu, pelo menos até então, resolvi fazer assim mesmo e, vejam o resultado:
ok, eu sei que a cara ficou péssima, o sabor também não ficou lá aquela maravilha, mas foi isso mesmo que eu jantei, tava dando pra engolir. Tava com fome, era tarde e não tinha mais nada pra comer.
Mas nem tudo está perdido no meu mundo ANAinBOSTON, ontem eu resolvi cozinhar de novo, e não é que dessa vez deu super-mega-blaster certo. Fiz uma deliciosa massa com molho de tomate, dessa vez quase sem problemas. Estava tudo quase pronto quando eu me dei conta de que eu não tinha um abridor de latas para abrir o molho. Virei a casa de cabeça para baixo e não achei o tal. Estava quase sentando no chão pra chorar quando eu lembre do meu lindo maraviwonderfull canivete adquirido recentemente. Saí correndo até o quarto e lá estava ele, encima da mesa sorrindo para mim. Mais uma vez ele me salvou, a lata foi aberta, o molho deu certo e eu jantei feliz da vida!!! Ficou tão bom que até requentei o restinho hoje e comi de novo.
Mudando de pato pra galinha...
Hoje resolvi que eu tinha de sair de casa de qualquer jeito, mesmo que fosse pra dar uma volta no quarteirão se não ia ficar maluca. Mais uma vez virei a casa pra achar um guarda chuva, achei e sai de casa toda pimpona, resolvi ir ao BarBrasuca comer um bauru. Nem estava chovendo tanto, mas o vento estava tremendo, e não é que no meio da avenida o meu guarda chuva, que já tava meio capenga, virou inteiro e se estropiou todo? Sai correndo em direção ao bar, cheguei lá não tinha mais sanduba, eles estavam fechando. Comprei uma coxinha, um glorioso suco de goiaba e voltei pra casa. Cheguei aqui que nem um pinto molhado, mas ok. Troquei de roupa e comi feliz da vida.
Foi isso, sem mais aventuras por enquanto. Sem planos também.
Beijos e fui.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Nos EUA
Cheguei em NY e os pseudo problemas começaram =/ ... Logo que eu sai do avião eu pensei FUDEU, agora la vou eu penar na porra da imigração. Entrei na fila, o cara me chamou e andei até la e entreguei o passaporte, ele pergunto a onde eu ia ficar, respondi. Perguntou quanto dinheiro eu tinha em mãos, eu respondi e ele: se vai viver quatro meses nos EUA com 700 dolares? Dãããã, óbvio que não, ele não conhece um negocio chamado banco. Mas quando ele perguntou se eu tinha passagem de volta eu gelei, que PUTA CAGADA, eu tenho a passagem de volta, mas eu não tinha o bilhete. Ele olhou bem pra mim e perguntou: você pretende morar nos EUA? No hora, super sem graça respondi que não. Ele ficou olhando o passaporte por uns tempos e depois me deixou ir. UFA, depois dessa todo o resto é peixe pequeno. No aeroporto ainda, depois de pegar a mala e sair para o saguão eu não econtrava o amigo que vinha me buscar, o Lamine. Depois de uma hora eu falei: FUDEU, to sozinha num pais desconhecido, e agora eu vou ficar aqui pra sempre. Que que eu faço? Nem o telefone eu sabia usar. Quem me salvou foi um grupo de brasileiros. Meu amigo lock tava me esperando no portão de embarque, porra no embarque? Como eu podia advinhar?!....
Ok, passado o susto fomos direto para NY, em uma travessa da 46, fomos jantar em um restaurante brasilieiro, onde a garçonete, Françoise, é uma suiça que fala perfeitamente o portugues. Ficamos la durante várias horas tomando chopp stella e comendo frango a passarinho... bem brasileiro, hahahaha. Tomamos um super porre, nem sei como chegamos em casa.
Françoise, Lamine e eu na balada.
Os gringos se matam de tomar PITU e acham que tão abafando... hahahaha, eu me divirto
A casa 1: A casa do Lamine, ou Baba para os intimos, é um VERDADEIRO CAOS, sabe aqueles apartamentos de filme junk, uma coisa completamente Christiane F. Porém não havia drogas pesadas. Tudo revirado, tudo imundo, um mundo coisas espalhadas e um cheiro fortíssimo de sei lá o que. Como disse a minha mãe, da uma vontade louca de sair arrumando e limpando, hahahha. Mas o bairro, o Bronx é um barato, e eu fui suuuuuuuper bem recebida pelo Lamine. No bairro todos falam espanhol e outras linguas, mas pouca gente fala ingles.
No dia seguinte foi tudo meio trash eu fiquei com medo de ir pra Boston, fiquei insegura quanto a minha family poder me receber e tals, pensei em desistir, me senti um lixo, achei que tudo ia dar errado, mas resolvi que tinha de ir. O único lugar em NY que eu caminhei sem ser oBronx foi China Town. Passei por lá correndo, com minha super big mala, pelo meio daquele monte de camelôs e lojinhas de tudo quanto é coisa. Fomos lá pois o China Bus é muito mais barato do que o de linha. Meu ônibus estava cheio de chineses, óbvio, mas também tinham alguns indianos e etc. O motorista era muito engraçado, ele ficou as quatro horas de viajem no telefone e como FALAVA ALTO...hahahaha. Cheguei na South Station, em Boston, e resolvi comer alguma coisa, afinal não sabia o que esperar da Linda (my american family). Sem nenhuma opção fui ao McDonalds e pedi um BigMac. Hahahaha, e eu que achei que ia conseguir viver aqui sem essas coias... Tinha grandes planos de voltar pra casa e contar: Eu morei nos EUA e não comi no Mc! Mas nem rolou...hahaha
Bom quando eu encontrei com a Linda grande parte dos meus medos se acalmaram. Ela é super querida, e super solícita, fala mais que os cotovelos e quer saber de tudo. Ela fala super rápido e, definitivamente, não da pra entender tudo, mas ok. Su filha, Ruby, não está em casa, e eu ainda não a conheci, mas parece ser uma menina especial. A casa é uma graça. (foto de fora da casa)
Tudo suuuuper zeeem, muitas, muitas coisas, mas tudo um tanto arrumado. Meu quarto é bem legal, com uma super cama de casal. Pontos ruins: não tem exatamente uma porta, apenas uma cortina , mas e daí, privacidade pra que mesmo??? (O.O), dois: o quarto é entulhado de coisas da casa, acho que aqui era tipo um escritório. Mas ok, com o tempo vou me arrumando. Ao menos tenho cama, guarda roupa e mesa!
3º dia:
Quase não durmi essa noite, foi bem dificil, estava muuuuuuuuuito insegura com tudo e com todos, tinha de fazer a prova em Harvard hoje e não tinha dispertador. Depois de lutar bravamente eu me levantei por volta das oito da manha e resolvi desfazer a mala, comer alguma guloseima que já tivesse na casa, tomar um banho e.... Me bateu um desepero tremendo, me deu uma super vontade de largar tudo e ir pra casa. Me senti a criatura mais infeliz e inferior do planeta, fiquei um tempão olhando para o teto e pensando: MEU MANO, QUE QUE EU FIZ? COMO SAIO DESSA AGORA. Falei com minha mãe no skype por um tempo, chorei sozinha um tempão, lavei o rosto, coloquei uma roupa muito gata e fui pra rua. O caminho até o ponto de onibus foi tranquilo, a Linda desenhou um bom mapa. La no ponto minha auto-confiança foi pelos ares de novo, e eu sei o porque: o ônibus não chegava nunca, pensei muitas vezes em jogar tudo pro ar e voltar correndo pra casa. Mas eu sabia que isso significaria arruinar o meu semestre e eu fui ficando, ficando e ficando, depois de sei la quanto tempo eu entrei no primeiro onibus que passou. Foi rapido até o metro, e de la pra Harvard então foi um pulo. Na universidade também foi facil achar o prédio, Minha auto-confiança voltou, muitas pequenas coisas deram certo nesse meio tempo, percebi que nem tudo estava perdido e que eu conseguiria.
Fiquei um tempão vagando ali na frente do predio, afinal eu cheguei la mais de três horas antes da prova. Fiquei curtindo o calor e as pessoas que passavam por ali, a fonte
Em certo momento cruzei a universidade toda de novo e resolvi ligar pra casa. Não é justo ligar só quando a gente ta se sentindo mal, e agora que eu estava bem eles tinha de saber.
Sobre a prova: Foi de longe a prova de ingles mais dificil que eu já fiz, mas até que foi. Sai quebrada, parecia que eu tinha corrido uma maratona, mas saí feliz como quem venceu a maratona. (não é, velho pai?!)
Eu, linda e loira em Harvard....hahaha, ninguem me segura!!!
Resolvi voltar pra casa enquanto havia luz, já que o caminho de volta eu nunca tinha feito. Já cancei de escrever... A volta foi super tranquila, não me perdi...hehehe e conclui que a porra do onibus que quase me deixou louca hoje cedo é demorado mesmo e pronto.
Minha rua
Minha casa
Aliás, conclui muitas coisas: Os ditos “americanos” são super gente boa, super solicitos e tem uma puta paciencia para entender o meu ingles mega blaster macarronico. Harvard é linda de morrer, parece cenário de cinema. Tem muuuuuuuitos brasileiros em Boston, muitas lojas de brasileiros etc. Comer bem aqui não é tarefa facil, pois tudo de guloso e podre é barato e a comida saldavel se esconde. Alias, se alguem achar me avisa, pq eu to procurando e dou até recompensa!!! Por hoje acho que é isso, ficam aí mais umas fotos do bairro onde eu moro. ( para os curiosos: Somerville, Boston MA – procura no google maps) hahahhaha
Beijocas
E fui
terça-feira, 2 de junho de 2009
Caderno de perguntas...
quem não lembrar dos cadernos de perguntas passados no colégio ou é desmemoriado, não teve pre-adolescencia, ou no máximo é menino.... hahahahah
vi esse no blog da minha tia, Corra Lola
, e não resisti...hehehehe... me desculpem, foi incontrolavel... quem quizer relembrar os muuuuuuito velhos tempos responde aí tbm....beijocas
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1. Nome?
Ana
2. Porque lhe deram esse nome?
Não sei, acho que por que era pequeno e simples.
3. Você faz pedido às estrelas??
acho que não.
4. Quando foi a última vez que você chorou?
hoje
5. Gosta da sua letra?
Até que gosto
6. Gosta de pão com o que?
muitas coisas, eu gosto muito de pão
7.Quantos filhos você tem?
nenhum, ainda...
8. Como se chamam e quantos anos eles têm?
nops.
9. Se vc fosse outra pessoa, seria seu amigo?
com certeza
10. Tem um diário?
Agenda...
11. Você é sarcástico?
Eu? Imagina...
12. Saltaria de bungee-jump?
NEM FUDENDO....hahahah, tenho outras atividades para descarregar minha adrenalina
13. Desamarra os sapatos antes de tirá-los?
só se precisar....
14. Acredita que você seja uma pessoa forte?
Sim,mas lamento as vezes, gostaria de ser mais mulherzinha sabe, pedir pra alguém segurar e ter um mal súbito!
15. Seu sorvete favorito?
Goiada
16. Quanto calça?
39 e ½ ...pode acreditar.
17. Vermelho ou Preto?
Vermelho, lóoogico
18. O que menos gosta em você?
Umas coisinhas que prefiro não comentar...
19. O que mais gosta em você?
Nem sei, muuuitas coisas...
20. De quem você sente saudades?
meus amigos que moram longe, meus amigos que moram perto e eu não vejo...
21. Gostaria que todas as pessoas que você convidou te respondessem?
é, acho que sim
22. Descreva que roupa e calçado você esta usando agora:
camiseta vermelha, calça Jean, meias e tênis vermelhos, casaco marrom e cachecol listrado....QUE FRIO!!!
23. Qual foi a ultima coisa que comeu hoje?
Chiclete
24. O que você está escutando agora?
o barulho do computador
25. A última pessoa com quem falou ao telefone?
Mami
26. Bebida favorita?
wisky
27. Comida favorita?
Macarrão com molho branco
28. Filme de terror ou com final feliz?
drama, nem sempre com final felis
29. Último filme que viu no cinema e com quem?
Budapest, com mami e sabrina
30. Dia favorito do ano?
1º de janeiro. É sempre bom começar um novo ano..
31. Inverno ou verão?
Outono...
32. Beijos ou abraços?
pode os dois?
33. Sobremesa favorita?
torta de morango
34. Quem você acha que vai te responder?
Sei não...
35. Quem você acha que não irá te responder?
ninguem....
36. Que livro está lendo?
“O Senhor das moscas”. “sobre a violência”e “introdução a filosofia de hegel”
37. O que tem na parede do seu quarto?
Um pôster do manifesto do partido comunista, um pôster do filme Os doces bárbaros, fotos de mami e papi, um mural lotado de coisas, espelho, uma mandala, um lp dos beatles e um flyer de uma mostra do Bertolucci
38. O que assistiu ontem a noite na TV?
Nada
39. Onde foi o lugar mais longe que você foi?
Ilha do Marajó, Pará.
sábado, 23 de maio de 2009
DESFIGURA
Desfigura... des... figura...
Francis Bacon... lupas, vermelho, luta greco-romana, sensualidade, sexo, paixão, etc
A peça Desfigura que está em cartaz no Espaço Parlapatões me chamou a atenção a uma semana quando surgiu em uma nota na página da UOL. No mesmo dia resolvi que iria assisti-la. Por que? Porque o pintor Francis Bacon
me chamou muita atenção assim que eu descobri que ele existia. Ainda mais com o meu tio (www.umdois.com) falando dele o tempo inteiro, não tinha como não ficar no mínimo curiosa...
A peça é fantástica, muito linda... O cenário e a iluminação estão muito bonitos, e a atuação dos dois atores é muito agradável. O jogo com os elementos clássicos da pesquisa de Bacon são muito interessantes – As Lupas, o Quadrado, o Círculo Preto, a Luta, a sexualidade/sensualidade, a figura humana...
Gente, seis já pararam pra ver as obras dele? Cara, o O Grito, do Munch, fica no chinelo no quesito MEDO (e olha que eu não gosto mesmo desse quadro, me faz passar meio mal)... Mas os quadros dele são muuuuito mais GROTESCOS, me dão MUITO MEDO... (só coloquei uns aqui pra vocês verem do que se trata). Mas ao mesmo tempo que da medo, me incanta ( O Grito não me incanta, eu não gosto dele mesmo.), acho fascinante o trabalho dele. Esse retrato do Papa é do mal...
Fiquei sabendo que essa semana estreiou uma exposição com obras dele em Nova York. (inveja master)... Cada vez estou mais convencida de que Nova York é um lugar fantástico e admiravel, mas outra hora falo mais disso...
Enfim, e por fim...
Fica aí dica pra ir lá conferir... o único inconveniente é o horário, meia noite... ninguém merece. Pode ser que eu seja meio criança, ou já esteja ficando veia, mas tive de assistir o espetáculo segurando o queixo e bocejando o tempo inteiro. Mas, de novo, valeu muuuito ter ido... Quem sabe eu até me animo de ir mais uma vez.
Espaço Parlapatões
Endereço: Praça Franklin Roosevelt, nº158 – Centro
Telefones: (11) 3258-4449
Sempre aos sábados à meia-noite
Preço: R$ 30
Duração: 70 minutos
Across the universe and HAIR
Hoje tive o imenso prazer de assistir ao filme “Acrros the Universe”. Sei que o filme já tem alguns aninhos, mas eu mais uma vez me enrolei e só consegui assisti-lo agora.
Durante o filme, foi me dando uma certa gastura... ele é, em muitos momentos (vou ser bacana e pegar leve) muito parecido com o filme (da minha vida) HAIR. Tem cenas muito mais do que livre
mente inspiradas, é o caso da cena que o personagem Jude caminha no meio de uma multidão que se move de forma “dançante”, o quando o MAX queima a sua convocação para Guerra do Vietnã etc, etc, etc... Tava meio que puta com isso tudo, mas depois de um tempo resolvi encarar pelo outro lado e comecei a me divertir.
O filme é super gostoso de assistir, as músicas ( dos Beatles) são fantásticas, e a forma como elas foram incorporadas a história (mesmo sabendo que a historia é que foi incorporada às músicas) é muito agradável. Gostei das várias versões, e...cara é muito gostoso assistir ao filme cantando, afinal todo mundo sabe cantar Beatles, nem que seja só o refrão! Rsrsrs...
Recomendo o filme para todo mundo que gosta de musicais, ou que gosta de Beatles e ta afins de fazer uma forcinha e assistir. Ah, mas para quem ainda (por um erro do destino) não assistiu ao HAIR, tem de assistir esse primeiro, pois esse sim, é maraviwonderful, perfeito, sensacional. Um filme para ver e rever....mas só se você gosta de musicais. 
Bom, deixo aqui o link pra o site do filme href="http://www.sonypictures.com/homevideo/acrosstheuniverse/" terget="new">Across the Universe
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Cineasta Michael Moore faz documentário sobre a crise econômica
LOS ANGELES (Reuters) - O cineasta Michael Moore, que criticou o governo Bush em "Fahrenheit 11 de Setembro" e a indústria da saúde em "S.O.S. Saúde", voltou sua atenção para o derretimento econômico global.
-
Feita em março deste ano, foto mostra Michael Moore captando imagens em Wall Street, NY
O diretor premiado com o Oscar vai lançar seu documentário, que ainda não tem título, em toda a América do Norte em 2 de outubro, anunciaram na quinta-feira a Overture Films e a Paramount Vantage, financiadoras do filme.
"Em dado momento, os ricos decidiram que ainda não tinham riqueza suficiente", disse Moore, segundo o comunicado das empresas.
"Eles queriam mais - muito mais. Então puseram mãos à obra para sistematicamente roubar do povo americano seu dinheiro arduamente ganho. Por que eles fizeram isso? É o que procuro descobrir neste filme."
A Overture disse que Moore ainda está trabalhando sobre o filme, e, de modo típico dele, está guardando segredo em relação aos detalhes da trama.
A Overture, que pertence à Liberty Media Corporation, vai cuidar da distribuição doméstica do filme em cinemas e outros locais, enquanto a Paramount Vantage, da Viacom, ficará com as vendas internacionais.
Michael Moore, 55 anos, já tratou do massacre econômico em "Roger e Eu", de 1989, o filme que o tornou conhecido, no qual documentou os efeitos do declínio da General Motors sobre sua cidade natal, Flint, no Michigan.
Ele esteve nos cinemas americanos mais recentemente com "S.O.S. Saúde", sobre o setor da saúde americano. O filme vendeu cerca de 25 milhões de dólares em ingressos em 2007.
Moore recebeu um Oscar em 2003 por "Tiros em Columbine", em que tratou do controle de armas, e no ano seguinte lançou o incendiário "Fahrenheit 11 de Setembro", que foi impiedoso com o então presidente George W. Bush e a guerra ao terrorismo. O filme foi grande sucesso nas bilheterias, tendo vendido 120 milhões de dólares em ingressos nos EUA, mas Moore não conseguiu seu objetivo de impedir que Bush fosse reeleito para um segundo mandato.
link: http://cinema.uol.com.br/ultnot/2009/05/21/ult26u28339.jhtm
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Eu sou muuito fã do Micheal Moore! Só na semana passada eu consegui assitir o "S.O.S - Saíde", um filme fantástico e emocionante. Chorei litros!
Gosto da forma despojada e cara de pau que ele constroe seus roteiros, gosto dos resultados e gosto das conclusões...
Quanto a esse aí sobre a crise, fico na espectativa... Tenho dúvidas, não sei que abordagem ele fará... Mas, gostei da notícia, e por isso resolvi colocá-la aqui...
beijos
quarta-feira, 20 de maio de 2009
para minha companhera Marília que se encontra perdida nas terras portenhas...
saudades, volta logo porra!
sexta-feira, 15 de maio de 2009
O anjo esquerdo da história – Haroldo de Campos
(Poema:escrito um ano depois do massacre de dezenove sem terra em Eldorado de Carajás.)
os sem-terra afinal
estão assentados na
pleniposse da terra:
de sem-terra passaram a
com-terra: ei-los
enterrados
desterrados de seu sopro
de vida
aterrados
terrorizados
terra que à terra
torna pleniposseiros terra-
tenentes de uma
vala (bala) comum:
pelo avesso afinal
entranhados no
lato ventre do
latifundio
que de im-
produtivo re-
velou-se assim u-
bérrimo: gerando pingue
messe de
sangue vermelhoso
lavradores sem
lavra ei-
los: afinal con-
vertidos em larvas
em mortuá-
rios despojos:
ataúdes lavrados
na escassa madeira
(matéria)
de si mesmos: a bala assassina
atocaiou-os
mortiassentados
sitibundos
decubito-abatidos pre-
destinatários de uma
agra (magra)
re (dis) (forme) forma
-fome- a-
grária: ei-
los gregária
comunidade de meeiros
do nada:
enver-
gonhada a-
goniada
avexada
-envergoncorroída de
imo-abrasivo re-
morso-
a pátria
(como ufanar-se da? )
apátrida
pranteia os seus des-
possuídos párias-
pátria parricida:
que talvez só afinal a
espada flamejante
do anjo torto da his-
tória cha-
mejando a contravento e
afogueando os
agrossicários sócios desse
fúnebre sodalício onde a
morte-marechala comanda uma
torva milícia de janízaros-ja-
gunços:
somente o anjo esquerdo
da história escovada a
contrapelo com sua
multigirante espada po-
dera (quem dera!) um dia
convocar do ror
nebuloso dos dias vin-
douros o dia
afinal sobreveniente do
justo
ajuste de
contas
Poema originalmente publicado na coletânea Crisantempo, de autoria de Haroldo de Campos (São Paulo: Editora Perspectiva, 1998).
sexta-feira, 13 de março de 2009
8 de março – Mulheres em luta por autonomia e contra a criminalização do aborto
Olá, sei que não falei da minha volta pelo norte e nordeste, e nem vou falar por agora. Ta tudo super corrido e não tenho tido tempo de escrever.
Só pra não passar em branco o NOSSO 8 de março, vou postar o pronunciamento do Ivan a respeito do tema, que diz tudo o que tem de ser dito...
"por autonomia e contra a criminalização do aborto
Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, Esta semana, comemora-se mais um Dia Internacional de Luta das Mulheres. Mais um 8 de março em que companheiras feministas, dos movimentos sociais, populares e de defesa dos direitos das mulheres sairão às ruas não só para comemorar o dia que lhes é dedicado, mas para marcá-lo com suas bandeiras de luta e para mostrar à sociedade brasileira o quanto nosso país ainda é desigual.
Vivemos uma realidade, característica do capitalismo, em que as mulheres são consideradas inferiores e propriedade dos homens. É esta realidade que explica o fato de uma mulher ser agredida a cada 15 segundos no Brasil. Ainda hoje, mulheres são assassinadas pelo simples fato de romperem um relacionamento amoroso, como vimos no caso Eloá, a jovem adolescente seqüestrada em Santo André, na Grande São Paulo, que teve um desfecho trágico diante das câmeras de TV.
Esta violência contra as mulheres tem o apoio e a cumplicidade, através do silêncio e da omissão, da sociedade e do Estado. É em busca de uma mudança de paradigma que as mulheres seguem lutando por políticas públicas de enfrentamento à violência que sofrem cotidianamente. Faz-se assim, urgente, a efetivação plena da Lei Maria da Penha, para punir os agressores e garantir proteção e autonomia às mulheres vítimas de agressões. Não há crise econômica que justifique o corte de recursos destinado a esta área por parte do governo Lula. Da mesma forma, é fundamental a implementação do Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, por tanto tempo ignorado pelo governador José Serra em meu estado.
/CN02/pronunciamentos/pron_det.asp?id=656
* Fotos tiradas por mim no ato do 8 de março em SP
Também gostaria de registrar meu protesto, Sr. Presidente, contra a CPI do aborto, recém-aprovada nesta Casa. Nosso partido tem uma resolução clara e contundente em defesa da legalização do aborto e a bancada do PSOL não assinou esta CPI. No momento em que tantas mulheres, em diferentes estados, têm sido humilhadas e até condenadas criminalmente por terem interrompido uma gravidez indesejada, a instalação desta CPI terá como resultado apenas mais perseguições às mulheres. Nenhuma mulher deve ser impedida de ser mãe, mas nenhuma mulher deve ser obrigada a ser mãe. Manter o aborto na ilegalidade condena as mais pobres sobretudo jovens e negras a se submeterem a práticas inseguras e arriscadas. Por isso, somos solidários e apoiamos as mulheres na luta por sua autonomia
Mas neste 8 de março as mulheres também levarão às ruas um protesto contra as medidas que vêm sendo adotadas no enfrentamento à crise econômica. Enquanto assistimos a demissões em massa, retirada e flexibilização de direitos, o IBGE constata que o desemprego, em tempos de crise, atinge mais duramente as mulheres jovens, negras ou pardas, e com menor escolaridade. Neste quadro, infelizmente, centrais sindicais como a CUT e a Força Sindical estão aceitando propostas como a redução da jornada de trabalho com redução de salários, justificando-as como respostas negociadas à crise, dentro da lógica de que todos devem se sacrificar um pouco até que o momento seja superado. Mas como falar em sacrifício de todos quando o governo Lula gasta bilhões para salvar os bancos e as grandes empresas e corta verbas das políticas sociais?
A previdência e a seguridade social, por exemplo, estão ameaçadas de sofrer um corte de 24 bilhões de reais se a proposta de Reforma Tributária enviada pelo governo ao Congresso for aprovada. Hoje, existem no Brasil mais de 40 milhões de pessoas fora da previdência social. Dessas, 30 milhões são mulheres. A proposta de desvincular todo o sistema de seguridade social de suas fontes de financiamento será mais um crime praticado contra as mulheres.
Olá, sei que não falei da minha volta pelo norte e nordeste, e nem vou falar por agora. Ta tudo super corrido e não tenho tido tempo de escrever.
Só pra não passar em branco o NOSSO 8 de março, vou postar o pronunciamento do Ivan a respeito do tema, que diz tudo o que tem de ser dito...
E é importante lembrar, sras e srs Deputados, que quando o Estado deixa de garantir direitos sociais, como a assistência social, este trabalho acaba recaindo sobre as mulheres. Afinal, na divisão sexual do trabalho construída ao longo da história, coube às mulheres cuidar dos doentes, crianças e idosos.
Por fim, para conquistar a igualdade em nosso país, é preciso ampliar serviços públicos e parar imediatamente com a privatização de unidades de saúde e das creches municipais, impulsionadas por governos neoliberais, como acontece em São Paulo, com a coligação DEM/PSDB. Sem a garantia de tais serviços públicos, segue a superexploração do trabalho e a violação dos direitos das mulheres.
Neste domingo, vamos todos e todas às ruas protestar contra esta sociedade machista e capitalista, e nos colocarmos ao lado das mulheres em sua luta por um mundo livre da violência, das desigualdades e de todas as formas de discriminação.
Muito obrigado.
Câmara dos Deputados – 04/03/09"
fonte: http://www.ivanvalente.com.br
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Voando a sua maneira....
Genteeeeee eu até ia começar a falar das minhas andanças pelo país, mas resolvi adiar um pouco quando assisti a esse video. É muito lindo, fique emocionadiassima.
Espero que ele emocione a vocês também.
E claro, os créditos para o desconhecido, mas já muito querido, Jairo, autor do fantástico blog Assim Como VOcê
beijos
Aninha
[ouvindo Tom Zé alucinadamente!]
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
um outro (e triste) ponto de vista
Até agora, me parecia unânime a alegria que gera a iminente saída do Bush, independentemente das opiniões acerca de seu sucessor.
Pois é, parecia, mas não é. Dando uma lida no arquivo do blog Pé na África , me deparei com uma notícia curiosa, pra não dizer desalentadora.
Parece que por lá a opinião é outra...
Na África, Bush deixa saudade
Agora que George Bush tem tempo sobrando para pensar sobre seu futuro, tenho uma sugestão a fazer. Peça asilo na África.
Entre os africanos, a unanimidade entre os analistas de que uma das piores presidências da histórica norte-americana chega ao fim é uma idéia absurda. Parece cômico, mas a África ainda se entusiasma com Bush, e lhe concede índices estratosféricos de popularidade.
Em junho do ano passado, o Pew Research, um dos principais centros de pesquisas de opinião do país, fez um grande levantamento em 47 países que incluiu uma pergunta sobre a confiança que tinham
Está aqui: http://pewglobal.org/reports/pdf/256.pdf
Os cinco primeiros colocados foram todos africanos: Na Costa do Marfim, inacreditáveis 82% dos entrevistados disseram ter muita ou alguma confiança de que Bush faz a coisa certa nas relações internacionais. Em seguida vieram Quênia (72%), Gana (69%), Mali (66%) e Nigéria (62%). Israel, considerado um dos mais tradicionais aliados do EUA, aparece em sexto, com 57% de confiança em Bush.
Apenas como comparação, na Turquia míseros 2% dos entrevistados disseram ter alguma confiança no presidente norte-americano. Na França foram 14%, na Rússia 18%, na Alemanha 19% e na China 31%. No Brasil, 17%.
Bush é genuinamente popular em várias partes da África (a foto abaixo, da Getty Images, é de um evento na Tanzânia).

Alguns meses atrás, vendo um videoclipe numa TV tanzaniana, imagens de arquivo de sua visita ao país eram mostradas enquanto um grupo de senhoras cantava músicas tradicionais. Em Ruanda, o presidente Paul Kagame tem uma política deliberada de se afastar dos franceses e belgas e se abraçar com americanos e britânicos, que inclui uma relação estreita com Bush. Na vizinha Uganda, Bush e o presidente local, Yoweri Museveni, são “cristãos renascidos” e se dizem irmãos espirituais.
Há inúmeros outros exemplos: no Quênia, Congo, Libéria e Costa do Marfim, sobram agradecimentos pelo papel dos EUA na resolução de conflitos internos. Em Darfur, não se esquecem que foi o governo Bush o primeiro a reconhecer que naquela região do Sudão pratica-se “genocídio”. Mesmo junto ao regime central sudanês há algum crédito: os EUA foram os principais patrocinadores do fim da guerra civil de duas décadas com rebeldes no sul do país.
E há o combate à Aids e à malária. Bush despejou dinheiro para combater as duas epidemias mais graves do continente. Triplicou o montante anual para US$ 9 bilhões de ajuda humanitária. “Espero que ele seja lembrado pelo aumento da assistência ao desenvolvimento para a África após um período de décadas em que essa verba se manteve estável”, disse a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, recentemente, à agência Associated Press.
Muito desse dinheiro vem com condições, no entanto, agregado a programas que promovem abstinência sexual e fidelidade, em vez de camisinhas. É o caso de Uganda, por exemplo, em que a influência religiosa é muito grande. Na foto abaixo, um adesivo que estimular jovens a "manterem a promessa" de fidelidade. Reparem no símbolo do Usaid, a agência humanitária norte-americana, no canto direito inferior.
E como fica a relação dos africanos com Obama? O novo presidente parte com uma grande vantagem, um grande risco e uma grande oportunidade.
A vantagem é a imensa simpatia dos africanos com o democrata, que vai lhe dar um colchão bastante duradouro de boa-vontade para suas políticas.
O risco é ele desmantelar de uma hora para outra o que Bush construiu em solo africano, sob o argumento de que não condiz com sua ideologia, principalmente no que se refere ao combate da Aids.
A oportunidade é avançar mais. Bush não foi longe o suficiente para liberar os mercados de seu país para produtos africanos, por exemplo.
Beijos ao enorme contingente de leitores do nosso blog. (hã, hã, pegaram o trocadilho?)
domingo, 7 de dezembro de 2008
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
EM QUE SITUAÇÕES A COR DA SUA PELE SE MOSTRA RELEVANTE?
Toni Garrido, 41
cantor e ator
EM QUE SITUAÇÕES A COR DA SUA PELE SE MOSTRA RELEVANTE?
"Quando ando pela av. Nossa Senhora de Copacabana, local movimentado do Rio, percebo que, depois de uns dez segundos andando atrás de alguém, a pessoa segura a bolsa mais forte ao virar rapidamente e ver um vulto negro. Outra história triste aconteceu com minha mãe, que tem 77 anos, sempre foi doméstica e agora está aposentada. Ela escolhia frutas em um mercado e tirou uma uva para provar. O dono da quitanda bateu na mão dela e gritou: "Sua negra ladra! Tire a mão daí!". Ela teve uma síncope nervosa e desabou no chão. Ninguém presente no momento quis testemunhar."
Laudely Sampaio, 50
engenheira
EM QUE SITUAÇÕES A COR DA SUA PELE SE MOSTRA RELEVANTE?
"Todo dia eu escuto: "Nossa, uma engenheira negra". Ou: "Eu tenho uma empregada negra, mas ela é tão boazinha". Sempre tive muito contato com empresários. Essas pessoas conversam comigo e às vezes se esquecem de que sou negra. Elas me vêem, mas não me enxergam como negra. Alguns acham que, se alcançam um certo status profissional, estão sendo bem-vistos, e o negro foi aceito. Não é verdade. Eu tenho certeza de que alguns daqueles empresários que falam que sou excelente profissional, se eu aparecesse como namorada de um filho, não iam achar graça nenhuma."
Edson Santos, 54
ministro da Igualdade Racial
EM QUE SITUAÇÕES A COR DA SUA PELE SE MOSTRA RELEVANTE?
"Há cerca de um mês, embarcava para um compromisso fora do país e, já no avião, vivi mais uma situação que mostrou como ainda há poucos negros em posições tradicionalmente ocupadas por brancos. Fui abordado pela aeromoça brasileira em inglês e respondi que ela podia falar em português mesmo, porque eu era brasileiro. Um outro passageiro, já sentado, ouviu o diálogo e disse à moça que eu era ministro. Imediatamente, ela perguntou: "De qual igreja?". Não foi discriminação ou racismo, mas mostra como nossa população ainda não está acostumada a ver negros em cargos de chefia."
Haroldo Costa, 68
ator e escritor
EM QUE SITUAÇÕES A COR DA SUA PELE SE MOSTRA RELEVANTE?
"Como qualquer negro brasileiro, fui barrado por porteiro de edifício, olhado com desconfiança ao entrar numa loja e exaltado por expressões como "é negro e é meu amigo". É uma cota que todos pagamos. Já vieram falar em inglês comigo numa festa sofisticada, como também, no mesmo tipo de festa, já me pediram que servisse um uísque, porque eu estava trajado a rigor. Ou me confundiram com diplomata africano. Preconceito tem para todos os gostos."
Paulo Paim, 58
senador (PT-RS)
EM QUE SITUAÇÕES A COR DA SUA PELE SE MOSTRA RELEVANTE?
"Como sou senador e muito conhecido, é mais difícil acontecer de eu sofrer preconceito hoje em dia. Mas quando meu filho entra numa loja de departamento, as pessoas perguntam: "O que você quer, moleque?" e coisas do gênero. Quando eu estava na escola, um professor disse: "Ô, Paim, você tem que entender que negro nasceu para arrancar paralelepípedo, e não vai passar disso". Na época em que me formei no Senai, com 16 anos, a moçada resolveu comemorar em um clube. Quando chegamos lá, todos puderam entrar menos eu. Meus amigos se negaram a entrar, então comemoramos na praça."
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
Carlos Drummond de Andrade
domingo, 30 de novembro de 2008
Mulheres e a guerra
Hoje venho comentar um blog que acabei de conhecer
DIÁRIO DA ÁFRICA
Mais um blog fantastico de jornalistas que se aventuram por esse continente imenso em busca de tentar, de alguma forma, minimizar o esquecimento total ao qual ele foi submetido desde sempre.
A matéria que me chamou múito a atenção é uma sobre um hospital congoles especializado em tratar de mulheres vitimas de estupro (em decorrencia da constante guerra). As informações são múito fortes, da uma vontade imensa de chorar, mas acho que escrevendo aqui vale mais do que ficar chorando as desgraças do mundo.
"Os soldados invadiram a cidade e Kibundila, que estava no mato, foi encontrada e violada por quatro soldados.
Um de cada vez.
Depois, pelos quatro ao mesmo tempo."
(...)
KIBUNDILA – Tudo isso acontece no Congo por causa da guerra. Quero casar e ter quatro filhos. Às vezes tenho raiva dos homens, e quero que meu marido seja um homem que nunca tenha estuprado nenhuma mulher.
Kibundila completa com uma frase avassaladora.
KIBUNDILA – Quando uma mulher é estuprada, todas as mulheres do mundo são estupradas porque todas as mulheres se sentem afetadas. Você agora (dirigindo-se à repórter da AP) se sente afetada pela minha história."
"VIRGINIE – Eu disse a eles que, se fossem me violentar, era melhor me matar antes.
(..)
VIRGINIE – Depois de violarem sucessivamente uma mulher, os agressores colocaram um revólver em sua vagina e atiraram. Outra, também depois de sido estuprada, teve um espeto enfiado na vagina."
A matéria completa está aqui http://diariodaafrica.blogspot.com/2008/11/kibundila-baronani-e-virginie-mumbere.html" terget=
Outro blog interresante sobre a África é o Pé na África
até...
Ana
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
caminhando contra a exclusão
Pessoas, sabado que vem vai rolar um ato múito legal em aqui na Paulista, vai ser a quinta passeata do Movimento SuperAção, que é um coletivo basicamente de cadeirantes, mas que trabalha com deficientes físicos e, principalmente, debate a inclusão do deficiente na sociedade. A marcha é composta por vários movimentos sociais dessa população. Esse ano o tema é incluindo diferenças em defesa dos direitos humanos.
Sairá da Pça. Oswaldo Cruz (perto do metrô paraiso) e irá até o MASP. Começa as 10 da manhã. 
Acho uma manifestação muito importante, já que pouco se debate na sociedade a inclusão da pessoa diferente, ao contrário, somos sempre levados a seguir um padrão e quem não se enquadra é excluido. Isso acontece todos os dias com os deficientes, no emprego, no estudo, até mesmo na hora de entrar num shopping ou circular na rua essas pessoas são excluidas.
Eu sei que a parada das calçadas acessiveis na Paulista é uma questão problemática em alguma medida, pois sabemos que o nosso atual prefeito (sempre) teve interesses escusos ao realizar essa e todas as obras de adequação de calçadas (sónos bairros ricos) e de canteirinhos floridos (aí sim, SÓ nos bairros ricos mesmo), mas para essas pessoas e para os velhinhos ^^ essas calçadas são fundamentais. Não vai ser nem o primeiro e nem o ultimo ato meio peleguinho (por um lado) que eu vou, já que a causa maior é muuuuito nobre...
Por tanto, vamos lá!!!
beijos
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
ÁFRICA
Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.
Amam-me com a única verdade dos meus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.
E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos meus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rols-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.
E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de strip-tease
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o mau casto impudor africano.
Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens que inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Klu-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville*
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a cruficifada nudez
da sua Joana D'Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas "Made in Germany"
mas já não ouvem a sutil voz das árvores
nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prnúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.
Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, amens
e bíceps do meu povo.
E ao som másculo dos tantãs tribais o eros
do meu grito fecunda o humus dos navios negreiros...
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.
* Cato Mannor e Sharpeville: Nomes de lugares onde ocorreram repressões policiais sangrentas na Africa do Sul contra trabalhadores africanos.
José Craveirinha
Lisboa, 1980
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Imagens falam mais do que palavras...
Tem gente qu leva jeito para a coisa...rsrsrs e esse cara é muito bom.
Me diverti muito com as charges dele. Separei uma coletanea especial sobre a crise econômica. Quem gostar pode conhecer o resto do trabalho aqui na primeira charge
"
beijos e até a próxima...
Ouvindo musica colombiana, até então desconhecida
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Ser de esquerda é...
Ser de esquerda é acreditar num mundo utópico, mesmo que ele às vezes pareça não existir. É saber que só estamos buscando o que muitos morreram para que cada vez cheguemos mais perto.
Ser de esquerda é ter coragem de falar enquanto não se esforçam para ouvir. É amar a poesia enquanto mercantilizam o ódio. É fazer da luta um romance, e da vida, uma biblioteca.
Ser de esquerda é amar a Mãe Natureza e não o Deus Dinheiro. Harmonizar o meio à sua volta sem mudar o seu posicionamento. É converter as coisas simples na fonte suprema de inspiração e razão insofismável de sempre agüentarmos um pouco mais.
Ser de esquerda é ter urgência na resolução dos problemas, porque o povo sofre desde sempre, e cada segundo a mais é muito tempo. A eficiência para semear é tão virtuosa quanto a paciência para colher.
Ser de esquerda é procurar nas piores correntezas, o vento que precisamos para seguir contra a maré. É amar a música do povo, e não a música para o povo. É respeitar todas as culturas, e saber que conhecê-las é uma das formas mais eficazes de resistir às domesticações.
Ser de esquerda é ter motivo para viver e para morrer, para sorrir e para chorar, para ficar e para partir, mesmo que as pessoas próximas, que tanto estimamos, não compreendam no momento. E o momento haverá de nos compreender.
retirado de Andre Ebner
sábado, 8 de novembro de 2008
A filosofia de buteco esclarece a crise americana
Voltando a vida com o blog, não sei por quanto tempo, gostaria de compartilhar esse pequeno texto sobre a crise economica mundail atual...rsrs
retirado do BLOG DO DIGÂO
"O seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça “na caderneta” aos seus leais fregueses, todos bebuns e quase todos desempregados.
Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobrepreço que os pinguços pagam pelo crédito e o aumento da margem para compensar o risco).
O gerente do banco do seu Biu, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento tendo o pindura dos pinguços como garantia.
Uns zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, PQP, TDA, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.
Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capítais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Biu ).
Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.
Até que alguém descobre que os bêubo da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu Biu vai à falência. E toda a cadeia sifu."
beijos, e até...
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Karl Marx Manda Lembranças
Gente, eu dificilmente recomendaria a leitura da Folha, mas é que sábado saiu um negócio incrível no caderno Dinheiro, que merece ser reproduzido.
De vez em quando ainda dá pra ler o que escrevem nos jornais gordos...
Karl Marx Manda Lembranças
Por Cesar Benjamin
As economias modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas. Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam "comportamento racional". Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação.
Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi Karl Marx. Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as "necessidades do estômago" são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada. Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria.
Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos. Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D - D" essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente. À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade.
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos. Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo.
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D - D". Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu. Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.
*CESAR BENJAMIN, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de "Bom Combate" (Contraponto, 2006).
Fonte: Folha de S. Paulo (20/9)


















