



Somos mulheres antes de tudo! jovens decididas a mudar o mundo em que vivemos.





Como diz André Dahmer, autor dos Malvados, Angeli é o maior chargista do Brasil!
(Cliquem na charge para vê-la melhor)
Agora que George Bush tem tempo sobrando para pensar sobre seu futuro, tenho uma sugestão a fazer. Peça asilo na África.
Entre os africanos, a unanimidade entre os analistas de que uma das piores presidências da histórica norte-americana chega ao fim é uma idéia absurda. Parece cômico, mas a África ainda se entusiasma com Bush, e lhe concede índices estratosféricos de popularidade.
Em junho do ano passado, o Pew Research, um dos principais centros de pesquisas de opinião do país, fez um grande levantamento em 47 países que incluiu uma pergunta sobre a confiança que tinham
Está aqui: http://pewglobal.org/reports/pdf/256.pdf
Os cinco primeiros colocados foram todos africanos: Na Costa do Marfim, inacreditáveis 82% dos entrevistados disseram ter muita ou alguma confiança de que Bush faz a coisa certa nas relações internacionais. Em seguida vieram Quênia (72%), Gana (69%), Mali (66%) e Nigéria (62%). Israel, considerado um dos mais tradicionais aliados do EUA, aparece em sexto, com 57% de confiança em Bush.
Apenas como comparação, na Turquia míseros 2% dos entrevistados disseram ter alguma confiança no presidente norte-americano. Na França foram 14%, na Rússia 18%, na Alemanha 19% e na China 31%. No Brasil, 17%.
Bush é genuinamente popular em várias partes da África (a foto abaixo, da Getty Images, é de um evento na Tanzânia).
Alguns meses atrás, vendo um videoclipe numa TV tanzaniana, imagens de arquivo de sua visita ao país eram mostradas enquanto um grupo de senhoras cantava músicas tradicionais. Em Ruanda, o presidente Paul Kagame tem uma política deliberada de se afastar dos franceses e belgas e se abraçar com americanos e britânicos, que inclui uma relação estreita com Bush. Na vizinha Uganda, Bush e o presidente local, Yoweri Museveni, são “cristãos renascidos” e se dizem irmãos espirituais.
Há inúmeros outros exemplos: no Quênia, Congo, Libéria e Costa do Marfim, sobram agradecimentos pelo papel dos EUA na resolução de conflitos internos. Em Darfur, não se esquecem que foi o governo Bush o primeiro a reconhecer que naquela região do Sudão pratica-se “genocídio”. Mesmo junto ao regime central sudanês há algum crédito: os EUA foram os principais patrocinadores do fim da guerra civil de duas décadas com rebeldes no sul do país.
E há o combate à Aids e à malária. Bush despejou dinheiro para combater as duas epidemias mais graves do continente. Triplicou o montante anual para US$ 9 bilhões de ajuda humanitária. “Espero que ele seja lembrado pelo aumento da assistência ao desenvolvimento para a África após um período de décadas em que essa verba se manteve estável”, disse a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, recentemente, à agência Associated Press.
Muito desse dinheiro vem com condições, no entanto, agregado a programas que promovem abstinência sexual e fidelidade, em vez de camisinhas. É o caso de Uganda, por exemplo, em que a influência religiosa é muito grande. Na foto abaixo, um adesivo que estimular jovens a "manterem a promessa" de fidelidade. Reparem no símbolo do Usaid, a agência humanitária norte-americana, no canto direito inferior.
E como fica a relação dos africanos com Obama? O novo presidente parte com uma grande vantagem, um grande risco e uma grande oportunidade.
A vantagem é a imensa simpatia dos africanos com o democrata, que vai lhe dar um colchão bastante duradouro de boa-vontade para suas políticas.
O risco é ele desmantelar de uma hora para outra o que Bush construiu em solo africano, sob o argumento de que não condiz com sua ideologia, principalmente no que se refere ao combate da Aids.
A oportunidade é avançar mais. Bush não foi longe o suficiente para liberar os mercados de seu país para produtos africanos, por exemplo.
Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.
Amam-me com a única verdade dos meus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.
E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos meus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rols-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.
E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de strip-tease
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o mau casto impudor africano.
Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens que inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Klu-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville*
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a cruficifada nudez
da sua Joana D'Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas "Made in Germany"
mas já não ouvem a sutil voz das árvores
nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prnúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.
Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, amens
e bíceps do meu povo.
E ao som másculo dos tantãs tribais o eros
do meu grito fecunda o humus dos navios negreiros...
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.
* Cato Mannor e Sharpeville: Nomes de lugares onde ocorreram repressões policiais sangrentas na Africa do Sul contra trabalhadores africanos.
José Craveirinha
Lisboa, 1980
Gente, eu dificilmente recomendaria a leitura da Folha, mas é que sábado saiu um negócio incrível no caderno Dinheiro, que merece ser reproduzido.
De vez em quando ainda dá pra ler o que escrevem nos jornais gordos...
"Somos os maiores poluidores do mundo, mas se for preciso poluiremos mais para evitar uma recessãona economia americana"
George W. Bush
Perguntinha: qual é a vontade que você tem ao ler uma coisa dessas?

Hoje o meu professor de literatura chegou na classe, para a primeira aula do semestre, dizendo que, antes de falar de literatura, necessitava comentar algumas notícias bizarras que ele vira nas férias. Falou do Daniel Dantas, do Salvatore Cacciola, essa coisa toda que já cansamos de ouvir e das quais a gente até já dá risada. Aí veio a terceira notícia, que era de fato bizarra, e que fez com que, enquanto meus colegas desmanchavam-se em gargalhadas, algumas lágrimas ameaçassem brotar dos meus olhos. Bateu um desespero tremendo, não sei explicar. As pessoas podem não ligar e apenas darem risada de tamanho absurdo, mas pra mim, a notícia era, de fato, preocupante. O título que ele colocou na lousa foi “Quarta frota da marinha americana”, coisa da qual eu, sinceramente, nunca tinha ouvido falar. Enfim, a tal da frota, que foi criada em 1943, com uma daquelas finalidades adoráveis que a gente conhece (algo do tipo “intervenção em Estados totalitários, afim de implantar a democracia”, etc), existiu até 1950.
Agora, vejam que maravilha: mais uma vez seremos brindados com a filantropia estadunidense, que reativa a quarta frota para fins humanitários, e também com a intenção de combater o narcotráfico, e que agirá nos mares latinos e caribenhos. Até aí, aparentemente, tudo bem. Mas já começam a aparecer alguns poréns. A primeira bizarrice é que, curiosamente, o chefe da tal frota sequer é da Marinha! Nada disso, ele na verdade é um veterano de guerra, especialista em sabotagens. Ok, vamos pular essa parte, por enquanto.
Bom, como eu disse, os navios irão, nos próximos tempos, saracotear pelas costas caribenhas e latinoamericanas. O que me leva a crer (não só a mim, mas a todos com quem eu conversei, o que me faz pensar que talvez não seja só neurose da minha cabeça, teorias conspiratórias ou algo do gênero.) que há, por aqui, algo que lhes incomoda ou interessa. Bem: primeira coisa que vem na cabeça, é claro, é a sempre desagradável Venezuela, ou a Bolívia, enfim, esses países que estão sofrendo nas mãos de tiranos, e nos quais os missionários da Santa Democracia estão querendo intervir há tempos. Depois, há também a velha Amazônia, tão suculenta e que, vejam só, com certeza deve ser um dos principais focos do narcotráfico, que eles querem invadir. OPA! Perdão, quis dizer ajudar! Aliás, voltando ao nosso veterano de guerra: quando lhe foi perguntado sobre a Amazônia ele declarou, simpaticamente, que gosta muito dela e que lhe agradaria bastante poder treinar seus homens por lá.
Mas é aí que me lembro de um evento curioso: a descoberta de um tal poço de petróleo, a doze milhas das praias brasileiras. Vejam bem: não é apenas um poço, é um mega poço! O que torna-o bem interessante.
Aí já é demais, foi o que eu pensei. Que os Ianques querem derrubar os governos de esquerda da América Latina a gente sempre soube. Eles quererem a Amazônia também não é nenhuma novidade. Mas daí a criar uma frota com a intenção de, deliberadamente, tentar dominar um poço de petróleo não dá, seria muita falta de discrição. “De fato não dá”, foi o primeiro pensamento que tive. “Afinal, a costa brasileira é território de exploração exclusivamente brasileira, segundo um acordo fechado com a ONU. Estamos protegidos!”.
Pois é. O problema é que de todos os países do mundo, apenas dois não assinaram o acordo, e um deles é – adivinhem só! – os Estados Unidos!
Meio desesperada, liguei para a minha amiga informadinha que me contou que eles nunca teriam coragem de chegar perto do nosso poço, porque isso iria contra a Convenção de Genebra, que provocaria uma terceira guerra mundial – do mundo inteiro contra os EUA – e que a ameaça, portanto, não era isso tudo que eu, ingenuamente, estava pensando. De fato, as autoridades brasileiras e latinoamericanas em geral, apesar de com a pulga atrás da orelha, não estão lá muuuuito preocupadas. Então por que é que eu deveria estar?
Não sei, mas estou. Tenho medo pela Venezuela e pela Bolívia, de verdade. Tenho medo que eles possam destruir novamente as conquistas da esquerda na América Latina, como já fizeram outras vezes. Fico preocupada com a Amazônia, com um tal veterano de guerra especialista em sabotagens dizendo por aí que gosta muito dela. E não por essa baboseira nacionalista de querer que um dos maiores tesouros do mundo seja do meu país, e sim por medo do que possa acontecer com ela nas mãos deles. Também fico, apesar de tudo, com um ELEFANTE atrás da orelha por causa do poção.
Admito que não tenho ainda muitas informações sobre isso – aliás, se alguém puder me ajudar com alguma correção ou informação nova, eu agradeceria muito! – e que, portanto, ainda não posso ter uma opinião definida a respeito. Mas se eu descobrir que as minhas preocupações são fundamentadas, vai ser desesperador me ver de mãos atadas diante disso.
Será que eles vão ser loucos de fazer isso? Será que vai ser possível fazer algo para ajudar?!
Seqüelas não acabam com o tempo. Amenizam.
Quando passam em minha mente as horas de espera, sinceramente, tenho dó de mim.
Nó na garganta, choro estagnado, revolta acompanhada de longo suspiro.
Ainda hoje, anos depois, a espera é por demais agoniante.
Horas, minutos, segundos são eternidades martirizantes. Não começam hoje,
adormeceram, a muito custo...comigo.
Esta espera, oh Deus! É como nunca pagar o pecado original. É ser condenado à morte varias vezes.
Quem disse que só se morre uma vez?
Sentidos se misturam, batidas cardíacas invadem a audição.
Aspirada à respiração não é...é intronchada. Os nervos já não tremem...dão solavancos. A espera está acabando. Ouço barulho de rodinhas.
A todo custo, quero entrar na parede. Esconder-me, fazer parte do cimento do quarto.
Olhos na abertura da porta rodam a fechadura. Já não sei quem e o que sou. Acuado,
tento fuga alucinante. Agarrado, imobilizado...escuto parte do
meu gemido.
Quem disse que só se morre uma vez?
Austregésilo Carrano Bueno, Poema das 4 horas de espera para ser eletrocutado.
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Dia 27, de manhã, fui colocar a data no meu caderno e pensei: "dia 27 de maio é dia de alguma coisa, é aniversário de alguém ou alguma data importante". Consultando o meu arquivo interno não pude me lembrar de nada que pudesse referir a este dia.
Ano que vem, neste mesmo dia, terei alguma coisa pra lembrar: algumas horas depois, faleceu no Hospital das Clínicas o Austregésilo Carrano Bueno, ou só Carrano para os conhecidos.
Pra quem não sabe, o Carrano, além de um baita amigo meu, era uma pessoa do caralho.
Vou dar uma ajudinha: ele foi o autor do livro Canto dos Malditos (é um livrão, pra quem ainda não leu, eu recomendo!), autobiografia que inspirou o filme Bicho de Sete Cabeças, da Laís Bodansky. O livro é um precioso documento que denuncia todos os podres do "holocausto psiquiátrico" no Brasil, como ele costumava chamar.
Aos 17 anos, ele foi internado em um hospital psiquiátrico à força pelo pai, que achou maconha em seu bolso. Durante três anos, ele foi transferido de um hospital pra outro, sem nunca ter chance de escapar, e sendo submetido a todo tipo de atrocidades, a torturas, eletrochoques, injeções de psicotrópicos, entre muitas outras coisas. Como se não bastasse, quando tudo isso terminou, teve que enfrentar o preconceito das pessoas e a dificuldade de reintegração do lado de cá dos muros.
Isso tudo é só um breve resumo da primeira parte de seu sofrimento. Depois de anos de pesquisa, o Carrano publicou o Canto dos Malditos e moveu uma ação indenizatória por erro médico psiquiátrico, a primeira do Brasil. Porém, em vez de ser recompensado pelo seu sofrimento, foi condenado a pagar indenização aos hospitais e psiquiatras citados no seu livro. No dia em que nos conhecemos, ele me contou que não tinha nem onde cair morto, e não podia ter absolutamente nenhum bem em seu nome, porque nesse caso teria o bem confiscado em nome da indenização que deveria pagar.
A existência dele não foi em vão. Ele foi uma pessoa muito forte, corajosa, dedicou sua vida à extinção da cultura manicomial no Brasil junto ao Movimento da Luta Antimanicomial. No período em que sua obra foi censurada, ele mesmo vendia, escondido, nas palestras que dava, em shoppings, faculdades. Lembro-me que em uma das primeiras vezes que eu o vi, com doze anos, em uma palestra que ele deu, eu e minhas amigas fomos falar com ele, que nos levou para um carro onde ele guardava vários exemplares e nos disse que esse era o único jeito de vender. Nos livros vendidos para aquelas menininhas, que ele deve ter achado tão engraçadas, ele escreveu: "a sensibilidade é o nosso maior dom. Sempre preservá-la". É dessa a frase que quero lembrar quando pensar nele no futuro.
Publicou muitos outros livros, menos conhecidos, foi dramaturgo, poeta, palestrante sobre saúde mental, ator e uma pessoa maravilhosa.
Mesmo que a mídia tenha virado as costas pra ele, mesmo que tenham tentado calar sua voz, ele lutou até o fim pelo que acreditava, e foi isso que o tornou uma das melhores pessoas que eu já conheci.
Tenho muito a agradecê-lo pelo que ele me ensinou, e digo de boca cheia que tenho muito orgulho de ter sido sua amiga.
Espero que não seja esquecido.
Gente! Olha só, eu ando meio sumida porque não tenho tido tempo nem pra respirar...
Essa vida de estudante de terceiro ano está... digamos... complicada. Sabem, ir bem na escola, estudar pro vestibular, fazer monografia e ainda sobrar tempo pra descansar um pouco pra não surtar é BEM difícil!
Mas não temam! Eu voltarei!
Na verdade, tenho pouca coisa a dizer sobre o ato do primeiro de maio na Praça da Sé.
Posso me lembrar das seguintes coisas:
Primeiro, me entristeceu ver tão pouca gente num evento como esse. Lá praticamente só haviam representantes de partidos, movimentos sociais e centrais sindicais. Algo em torno de duas mil pessoas; duas mil, de quase onze milhões de habitantes. Cadê os trabalhadores? Será que todos foram ao show da Calypso, promovido pela CUT, ou ao show do Zezé di Camargo e do Luciano da Força Sindical? Será que eles preferem comer essa esmola cultural a ir lá se manifestar pelos seus direitos?
Não chegou a me angustiar, eu diria que foi incômodo.
Foi incômodo e, de fato, meio sacal. Toda aquela coisa de pessoas passarem xingando, polícia tentando acabar com tudo, mas tudo meio calmo e sem nenhum conflito aparente.
Gostei de ouvir a Internacional e queria saber cantá-la.
E entre as poucas coisas que ouvi do que diziam no carro de som, acho importante lembrar de uma:
Ontem foi o dia em que, no mundo todo, os trabalhadores organizaram atos e manifestações, o que deveria ser, no mínimo, um direito assegurado pelo Estado. No Haiti, os trabalhadores foram terminantemente proibidos de sair às ruas para se organizarem em torno de qualquer coisa que fosse.
Adivinhem quem estava lá para impedí-los.
11 milhões de pessoas, quase 6 milhões de automóveis; um acidente a cada 3 minutos; uma pessoa morta a cada 6 horas; 8 vítimas fatais da poluição por dia.
No lugar da praça, o shopping center; no lugar da calçada, a avenida; no lugar do parque, o estacionamento; em vez de vozes, motores e buzinas.
Trabalhar para dirigir, dirigir para trabalhar: compre um carro, liberte-se do transporte público ruim. Aquilo que é público é de ninguém, ou daqueles que não podem pagar.
Vidros escuros e fechados evitam o contato humano. Tédio, raiva angústia e solidão na cidade que não pode parar, mas não consegue sair do lugar.
Olha só, eu acabei de cair de para-quedas aqui, ainda não sei de nada.
Recebi um convite, e aqui estou eu.
Bem, sem muitas apresentações agora. Vou botar aqui um poema (editado, porque não gosto dele inteiro) que considero significativo:
Ode ao Burguês
Mário de Andrade
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
(...)
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
(...)
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...
Marília